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Maskirovka, o jeito russo de baralhar o inimigo

ricardo nuno *

Publicado: jueves, 29 junio 2023

Ainda está por compreender na sua plenitude o alcance do que se passou na Rússia durante o fim-de-semana, mas tudo indica uma manobra tipo Maskirovka, o jeito russo de baralhar o inimigo. Se aquela foi realmente uma encenação, haverá também uma cartada subjacente que se terá de revelar nos próximos dias.

Gorbachev, em 1991, de viagem à Crimeia, terá deixado ver como se dava um golpe em Moscovo, em tão só três dias. Naquela ocasião, o último presidente soviético sabia que já tinha perdido os apoios internacionais que necessitava para manter-se no poder, desde o momento que o G7 e o FMI lhe viraram as costas, um par de meses antes. Sabendo que tinha perdido as rédeas, ainda quis comprovar quem lhe era fiel e quem não. Quando voltou à capital, já Yeltsin festejava a vitória nas ruas com o povo.

Ora desta feita, o aval que a liderança russa necessitava era interno, e Putin sabe agora que tem a vontade popular e o aparelho militar do seu lado. É certo que tudo decorreu em muito pouco tempo, mas terá sido o suficiente para os serviços de informação saberem qual é a capacidade de interferência externa, e de terem avaliado quais elementos internos terão de ser purgados, que serão insignificantes.

Não houve debandada, desobediência ou fugas nas altas esferas políticas ou no aparelho militar. Putin sabe agora também que pode contar com Erdogan para a estabilidade do seu vizinho no Mar Negro e na serie de projetos comuns com Ancara, uma vez que o líder turco (ele também vítima de uma intentona em 2016) lhe chamou pessoalmente a manifestar o seu apoio institucional.

Do lado europeu, também foi interessante ver a reacção da comunicação social do sistema em toda a sua desonestidade. De um dia para o outro, os Wagner passaram de terroristas a «freedom fighters». Certos opinadores de cariz liberal já sonhavam com uma Rússia despedaçada e no caos, mesmo que tal supusesse uma ameaça extrema para o mundo, muito em particular para a Europa. A «guerra civil» abertamente apregoada e incentivada desde alguns tuítes, não seria outra coisa que a primeira guerra civil num país nuclear, num imenso território sem Estado, seguramente entregue a toda a sorte de senhores da guerra, desordem, fomes, migrações descontroladas e uma serie de outras consequências imprevisíveis.

Para quem examina a geopolítica desde pressupostos sérios, o curto espectro arrepiante de uma Rússia no caos corroborou a ideia de que a segurança alicerçada num Estado forte no mais extenso país do mundo equivale à segurança do próprio mundo.

Se esta aferição sumária for correcta, a encenação deixa desnorteados e no ridículo os chacais e abutres ocidentais e, mais importante, deixa Putin mais forte que nunca no plano interno e de mãos livres para lançar a seguinte fase da operação em curso na Ucrânia. Quiçá desde a Bielorrússia, ali mesmo em cima de Kiev? Aguardemos e estejamos atentos, a História está se desenrolando diante os nossos olhos.

* Redactor jefe de GeoPol, periodista portugués licenciado en Ciencias Políticas y Relaciones Internacionales, con estudios superiores en Comunicación Política. Realizó una pasantía en política internacional en DN, en Lisboa y trabajó durante años en medios digitales en Barcelona.

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